A bruma que recobre Myanmar no início do dia é como um véu que esconde os mistérios desse intrigante país do sudeste asiático. Encravado entre as gigantes Índia, China e Tailândia parece sumir no mapa devido à proximidade de seus vizinhos. Mas, não se engane. Ao descobrir seus segredos, você irá se apaixonar.
Isolado por muito tempo, Myanmar ou antiga Birmânia, se desenvolveu indiferente a tudo ao que acontecia no resto do mundo, talvez esperando o momento certo para mostrar todo seu esplendor.
Em menos de uma década as portas do país foram, aos poucos, se abrindo para o turismo em grande escala, principalmente o do Ocidente. Infelizmente, dono de um conturbado passado histórico, ainda vive um processo de transição de um período de ditadura – que rendeu um Prêmio Nobel da Paz à líder Aung San Suu Kyi, conhecida como The Lady.
O que foi se revelando, deixou os primeiros visitantes com os olhos brilhando: inúmeros templos religiosos, um mais impressionante que o outro, paisagens deslumbrantes e a hospitalidade e simpatia da população de hábitos simples, mas extremamente encantadora, além uma cultura riquíssima, porém quase desconhecida.
Há que se considerar que trata-se de uma viagem para os mais ousados e adeptos de experiências renovadoras. Diferente dos outros gigantes da Ásia, o país tem sua porção de controvérsia. Apesar de toda a doçura e carisma de seu povo, há muita pobreza. E, ponderando sua história de anos de exclusão do turismo (o que proporciona interação com costumes diferentes), é necessário estar atento para seguir a conduta da região. Com esses pontos anotados, pode ter certeza que será uma experiência marcante, como poucos lugares ainda podem oferecer.
A maioria da população é composta por budistas (aproximadamente 75%), isso explica a grande quantidade de imagens de Buda espalhada em diversos templos. A religiosidade presente aqui é uma atração à parte. Emana no clima da região e sua expressão é responsável pelas maiores belezas que você verá em sua visita.
Um dos maiores impactos é causado pelo templo Shwedagon Pagoda, situado na capital do país, Yangon. Construído há dez séculos, tem diversas estátuas de Buda. A parte externa, completamente dourada, rebate a luz do sol durante o dia, chegando ofuscar nossos olhos. À noite, todo esse o ouro recebe iluminação especial e se destaca na paisagem, parecendo coisa de outro mundo, tamanha a magnitude do efeito.
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São tantos templos, que há uma cidade que recebe o título de cidade dos templos: Bagan. Ela abriga mais de 2 mil e suas cúpulas pontiagudas despontam no horizonte em meio às árvores. Trata-se de um santuário a céu aberto. E lá, ainda há a incrível oportunidade de ver tudo de cima, num encantador passeio de balão.
Um dos belos exemplos de seus templos, é o Phaung Daw Oo, onde é realizado um dos festivais budistas mais coloridos do país, o da Barca Real, comemorado em outubro. O evento dura 18 dias e um barco desenhado em forma da hintha (ganso sagrado para a religião) navega pelo lago Inle movido por dezenas de remadores de cada lado, levando a imagem sagrada de Buda. Muitos outros barcos acompanham a procissão que percorre diversos vilarejos.
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No caso do templo Mount Popa, a localização é o que mais chama a atenção. Ele fica a 1518 metros de altura e está no topo de um vulcão adormecido há muito tempo. Para visitá-lo, vai ser preciso um esforço extra para vencer os 777 degraus e chegar lá em cima. Mas a vista justifica todo o esforço.
Em Mandalay, considerada a capital cultural do país, está o Mahamuni Buddha. O que atrai os visitantes a este templo, é a enorme estátua de Buda de quase cinco toneladas. Um detalhe curioso é que os visitantes podem colar na estátua finíssimas folhas de ouro para atrair boa sorte. Como o costume é muito antigo, calcula-se que a camada dourada esteja em 15 centímetros de espessura, aumentando aos poucos o peso da estátua.
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Lá, além dos templos, você terá oportunidade de visitar diversos museus, contemplar paisagens incríveis de seus mirantes e ainda conhecer seu famoso teatro de marionetes, expressão artística muito comum na Birmânia. Além de toda a graça dos bonecos, o espetáculo é acompanhado por uma pequena orquestra, uma experiência encantadora.
Mandalay Theater
É sempre válido ressaltar, que ao visitar os templos, algumas regras devem ser seguidas: sempre entrar descalço; quando sentar, nunca apontar a sola dos pés para a estátua de Buda ou para algum monge que esteja no mesmo ambiente; usar roupas sóbrias (shorts ou minissaias, nem pensar); fazer silêncio, sempre (lembre-se que é um lugar de meditação). Seguindo essas orientações a visita vai ser tranquila, pode acreditar. E você sairá renovado, alimentado com essa energia pacífica.
Considerando o quanto a religiosidade é importante nesse país, note o quão comum será cruzar com monges caminhando tranquilamente, com suas vestes características. Existem até crianças que são chamadas de mini monges, pois já frequentam mosteiros, vão a templos, fazem suas orações e seguem as tradições budistas à risca. É um orgulho para a família que a criança seja tão dedicada. São uma atração à parte, compondo toda a aura da região.
A melhor forma de conhecer Myanmar é de barco. Há excelentes opções de cruzeiros, com infra-estrutura impecável e muito conforto, com rotas pelo imponente Rio Ayeyarwady – o mais longo do país e importantíssimo para o comércio; pelo Rio Chindwin, entre outros.
Contemplar, durante a tranquila navegação que as águas birmanesas proporcionam, a paisagem dramática, com belezas únicas e quase desconhecidas, é muita exclusividade.
Um grato componente desses trajetos é a oportunidade de conhecer os vilarejos às margens dos rios. Se como um todo, o país já é consideravelmente inexplorado, nesses vilarejos a experiência é ainda mais impactante. Há a chance de uma vivência muito autêntica, no contato com as pessoas que vivem ali. É o tipo de presente que fica para a vida toda. Nos faz refletir, dimensiona nosso ponto de vista e nos lembra da importância da interação humana, com todas as suas peculiaridades. Um valor que só recebemos através da troca.
Outra parada obrigatória é no Lake Inle, um dos lagos mais famosos. Muito diferente do que estamos acostumados, navegando por ele você encontrará casas, mercados e feiras flutuantes. Incrível, né? Mais uma rica chance de observar a simplicidade e tradição milenar no modo dos birmaneses viverem suas rotinas. O visual é valioso. Rodeado por montanhas e por mais de 200 mosteiros, serve de cenário para a contemplação de um detalhe muito marcante do local: a forma como os ribeirinhos remam seus botes. Não deixe de notar. Para eles uma atividade cotidiana, para quem acompanha um pequeno espetáculo.
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O povo de Myanmar parece não ter absorvido a tensão de sua história. São alegres, sorridentes e parecem estar sempre em paz com a vida. Recebem todos de braços abertos e interagem com muita facilidade. Qualquer viajante tem a sensação de ser uma pessoa querida. Talvez o isolamento do país por tanto tempo, tenha despertado a curiosidade com os estrangeiros.
Seus costumes são muito diferentes dos nossos, ocidentais. Vale notar. Os homens (todos) vestem saias, chamadas de longhis. Todo mundo, até as crianças, costuma mascar noz de areca com folhas de betel, que deixam a boca toda vermelha e os dentes coloridos. O protetor solar deles é extraído de uma árvore chamada thanakha e é comum pessoas andarem nas ruas com uma mancha branca cobrindo as bochechas para se protegerem do sol.
E o que falar das feiras de rua que acontecem, principalmente na capital Yangon? Tem de tudo nesse comércio ao ar livre. Os nativos estendem suas mercadorias diretamente no chão e ficam sentados à espera dos clientes. Vendem frutas, legumes, temperos, grãos e o que mais for possível comercializar. A experiência de entrar em contato com a população é enriquecedora. Muitos cheiros, sons, cores e sabores.
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Uma outra faceta incrível de Myanmar é o seu artesanato. Produzem uma diversidade de produtos em laca – um dos produtos mais importantes do país – como tigelas, pratos, cadeiras, biombos, entre tantos outros; possuem diversas tecelagens de seda, oficinas de prataria, ourives e são famosos pelos seus charutos confeccionados a mão. Considerando toda a beleza e riqueza de detalhes de seus templos, não é difícil entender como seu povo desenvolveu tamanha aptidão para o artesanato.
Algumas das responsáveis pelos produtos artesanais regionais são as intrigantes “mulheres-girafa”, pertencentes à etnia Kayan, da tribo Padaung. Atualmente, elas vivem em aldeias isoladas na fronteira entre Myanmar e Tailândia. Essa migração foi uma fuga do regime militar, enfrentado anos antes.
Vivem de forma extremamente simples, sem nenhum luxo e impressionam com a imponência de seus anéis. A tribo Padaung acredita que a beleza feminina é proporcional ao comprimento do pescoço. Para atingir o resultado desejado, os anéis começam a ser utilizados ainda na infância. Até o final da sua vida, uma mulher girafa pode carregar até 10kg de aros no pescoço, impressionante!
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O exótico, em Myanmar, está por toda parte. Tudo vai se revelando aos poucos, num ritmo leve e único, mostrando que ali está um país incrível, com um povo ímpar, que tem muito a ensinar sobre simplicidade e tranquilidade. O tempo lá, passa em outro ritmo e seus olhos vão custar a acreditar em que tudo que verão.